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Se uma gaivota viesse

por MC, em 31.03.17

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Esta é a minha Lisboa. Minha. Ganhei-a com quantos minutos a contemplei, em tantas as horas, de tantos dias, dos anos que aqui escorreram e a pintaram das minhas cores. 

 

 

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publicado às 23:43

Pessoas

por MC, em 27.01.17

A menina Isabelinha deu os primeiros passinhos hesitantes e apertou contra o peito o roupão farfalhudo de pequenos ursinhos lilases. Havia um ror de dias que não saía da cama senão para fazer um chá ou aquecer um caldinho. Soltou uma tosse funda e cavernosa que lhe escavou ainda mais o rasgo doloroso dentro do peito. Agarrou na caneca fumegante com as mãos em concha e caminhou devagar até à janela.

A chuva parara ao fim do dia e a rua recomeçava lentamente a mexer-se. A menina Isabelinha olhou lá para fora através dos quadrados envidraçados da velhinha janela de guilhotina e sorriu, agradada. Sentou-se na sua senhorinha de veludo cor de salmão e pousou a caneca no parapeito. Contemplou a rua com a propriedade de uma rainha a perscrutar os seus domínios. Por muito que pensasse, a menina Isabelinha não conseguia indicar um local no mundo inteirinho onde se sentisse melhor do que ali, sentadinha à janela, a observar as gentes do seu bairro.

A menina Isabelinha adora pessoas. A-do-ra. Mas não é assim um gostar mesmo ‘gostar’. Não é um ‘gostar’ – digamos - bonito, daqueles que transbordam de calor humano e que nos dão ímpetos fraternos de abraçar o próximo. Não é. A bem da verdade, contam-se pelos dedos de uma mão – talvez até sobrem alguns - as pessoas de quem a menina Isabelinha gosta assim, mesmo – mesmo, com o âmago a transbordar de afeição.

É mais um ‘gostar’ científico, empírico, de investigador curioso a observar o habitat natural de uma qualquer espécie exótica e estúrdia, num documentário da National Geographic. A menina Isabelinha vive perpetuamente fascinada pela natureza humana e os seus mistérios.

Dá por si a analisar, com os desvelos meticulosos de um doutorando, a forma como a D. Paulina dos correios desfila no passeio, de braço bem apertado com o bonitão do seu marido, lançando às empregadas do quiosque olhadelas fulminantes de soberba e intimidação. Deixa-a perpetuamente embaçada de perplexidade que a D. Paulina não atente, nem uma única vez, no olhar de silencioso assentimento que o seu Tó Zé troca com a ruiva vistosa do bar da travessa de cima, que com eles se cruza amiúde a caminho do trabalho.

Logo depois, saracoteia-se no passeio a Sra. D. Matilde, de salto alto na calçada portuguesa, cauda de raposa afogueada na gola do sobretudo camel, os dedos de um cor-de-rosa translúcido a segurar, delicados, a trelinha do Ricky Martin, o seu pequenino e raríssimo Skye Terrier, que o Sr. Coronel mandou vir da Escócia especialmente para ela por alturas do seu aniversário. É uma senhora muito requintada, a Sra. D. Matilde. Sai sempre à rua perfeitamente penteada e maquilhada, sem quaisquer vestígios dos frequentes hematomas que a vizinhança vislumbra quando, logo pela fresca, assoma à varanda ainda de roupão, para se assegurar de que o Sr. Coronel se desloca sem imprevistos a caminho do quartel. É muito boa pessoa, a Sra. D. Matilde – diz a menina Isabelinha de si para si - pena ser tão distraída, tão atreita a acidentes domésticos.

Assomam agora ao fundo da rua as mocinhas da fábrica dos sabonetes que despegaram às seis. Vão ao jardim do chafariz tirar selfies bonitas, emolduradas pelas flores delicadas dos sabugueiros, para semear nas redes sociais a nostalgia dos lugares improváveis, sabe-o bem a menina Isabelinha.

Os lábios abrem-se-lhe num sorriso satisfeito. Deixa-se ficar ali, aconchegada, eterna refém daquele perverso fascínio, consoladinha como um gato ao borralho.

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publicado às 22:35

Natais

por MC, em 29.12.16

 

Algures numa rua de Lisboa em 1912, Joshua Benolie

 (Rua de Lisboa no Natal de 1912, foto de Joshua Benoliel)

 

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.

David Mourão-Ferreira
 
 
 
 
 

 

 

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publicado às 22:48

Ó professora, por favor!

por MC, em 06.11.16

O dia começou há muito e parece não querer acabar. A alvorada pouco depois das sete, o acordar estremunhado e choroso, a relutância em largar a cama quentinha e o pijama de ursinhos amarelos. A rabugice a vestir, o pequeno-almoço mastigado a custo, o mano crescido a implicar logo pela fresca. A mãe, na pressa atabalhoada dos preparativos do dia, reclama razoabilidade e juízo; o pai procura eternamente as chaves do carro, a mala do portátil e o telemóvel; depois quer saber quem foi que lhe escondeu os óculos - os mesmos que equilibra artisticamente no cabelo revolto.

A primeira paragem é no emprego da mãe, alguns minutos antes das oito; depois sai o irmão, à porta da secundária às oito e vinte. Fica só ela no banco de trás, quentinho e confortável, a dormitar mais um bocadinho e a ouvir em surdina a rádio que o papá escolheu. À porta da escola desliza contrariada para o empedrado do passeio e lança um último olhar amoroso e envergonhado para o elefante de peluche semi-escondido entre os bancos, que ama desmesuradamente e sem o qual não sabe viver.

Logo de manhã há fichas de leitura e exercícios de vocabulário. A professora corrige os trabalhos de casa, faz perguntas sobre o texto, fiscaliza o aprumo da caligrafia, o asseio dos cadernos, a organização da secretária. O intervalo corre num rápido: o lanche é engolido de afogadilho, que cada momento é precioso. Há correrias, risos e zangas, salta-se ao elástico, sonha-se com os baloiços – só há dois, mais um escorrega e uma roda, para cerca de quinhentos meninos: está bem de ver que os mais pequenos nunca têm vez.

Depois há fichas de Estudo do Meio e a seguir aula de Música. Por volta do meio-dia, os meninos seguem em carreirinha ordenada e solene pela rua acima, para almoçar na escola ‘dos grandes’. O refeitório é imenso e ensurdecedor, a balbúrdia das vozes desregradas e das loiças a tinir nos tabuleiros agita e destempera os pequenitos. Regressam à sala de aula frenéticos e transpirados, as faces vermelhas e as roupas sujas.

Já o sol de outono está a poisar de mansinho nas copas das árvores e  agora é a vez do Manel no quadro. A conta arrasta-se ardósia fora, os números tortos e desalinhados como molas soltas. “Muito bem, Manel, vai lá sentar-te. Maria Inês, anda cá tu agora”, diz a professora, enquanto apaga os algarismos para escrever outro exercício. “Então, Maria Inês?”, torna ela, e procura com o olhar a razão da demora. A Maria Inês está debruçada sobre a mesa, a cabeça encostada à mochila aninhada entre os seus braços. “Não vou”, murmura como quem mastiga as palavras. “O que disseste?”, questiona a professora. E ela repete, agora num grito de revolta, com o fervor de quem atira balas: “não vou ao quadro! Não quero ir ao quadro, já disse!”

“Ó Maria Inês, que conversa é essa?” impacienta-se a professora. A criança continua imóvel, deitada sobre os braços. A agitação dos garotos dá agora lugar a um silêncio expectante. Todos os olhos estão postos nas duas protagonistas do episódio. A professora respira fundo, numa tentativa esforçada de camuflar o cansaço com uma serenidade que não sente. Caminha em direcção à mesa da gaiata, disposta a legitimar a sua autoridade com firmeza.

Mas ainda não chegou ao seu destino e já a Maria Inês se ergue e clama, olhos vermelhos e lacrimejantes, a franja empapada de transpiração, a angústia evidente a bailar-lhe na voz pequenina: “ó professora, por favor, não me obrigues a ir ao quadro! Estou tããõoo cansada! Não quero fazer mais nada hoje! Deixa-me lá estar aqui um bocadinho sossegada!”

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publicado às 17:59

Pavor

por MC, em 20.10.16

Num determinado evento cá da minha vida profissional, um palestrante propôs aos presentes uma actividade de abordagem ao estudo de um certo tema, a qual tinha como ponto de partida a verbalização imediata das sensações / emoções /ideias sentidas por cada um, perante um elenco de fotos que iam sendo apresentadas. Se me apetece falar nisto agora não é pela excentricidade da proposta - não foi sequer a primeira vez que a vi posta em prática na análise de temáticas na área da psicologia - mas sobretudo pela previsibilidade da conclusão a que acabo sempre por chegar: sou uma criatura com problemas.

Onde a maioria das pessoas acha coisas 'assim', eu invariavelmente acho coisas 'assado'. Mas não é um 'assado' em condições, apetitoso e estaladiço, do tipo que automaticamente nos unta daquela película de singularidade gostosa com que não nos importamos de ser temperados. Não. É um 'assado' chocho e desconcertante, que rapidamente resguardo na escuridão do forno, para evitar embaraços. Senão, vejamos estes exemplos: 

 

national geographic 1º lugar.jpg

 

Onde todos os olhares extasiados vêem paz, serenidade, liberdade, leveza, alegria e comunhão com a natureza, eu sinto ansiedade, angústia, opressão. Medo. 

 

E aqui: grandiosidade? Exaltação? Aventura? Silêncio? 

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Não. Sudação. Tremores. Pavor. Nheeeeeee. 

 

 

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publicado às 23:41

Acorda contrariada e aturdida. O olhar desorientado percorre a sala escurecida, ainda mergulhada no breu da noite. Os pés gelados pousam no encosto de um sofá, nas suas costas sente um calorzinho bom e aconchegante. A fonte de calor é macia e mexe-se suavemente encostada a si. Pelo vidro da janela, logo acima da sua cabeça, escorre a luz cálida do candeeiro da rua, numa perspectiva que não lhe é familiar.

Demora alguns instantes a compreender onde se encontra: na casa pequenina da avó Joana. Outra vez. Fugiram a meio da noite, esbaforidas e amedrontadas, pela rua fora, com os mais pequenos de braçado, em passo apressado, a respiração ofegante do cansaço e do medo, como malfeitoras a monte. Outra vez.

Da cozinha volteiam as palavras abafadas mas veementes da avó, o choro empastelado e fanhoso da mãe, o tilintar metálico de uma colher a bater distraidamente na chávena de chá. Mexe-se devagar para ver as horas no telemóvel e a irmã pequenita aconchega-se mais a ela, no remanso do sono. Levanta-se com delicadeza e veste em silêncio as roupas do dia anterior, penduradas nas costas de uma cadeira.

Pela porta entreaberta, observa em segredo as mulheres na cozinha. A mãe, sentada à mesa, embala o irmão bebé, que dorme um sono agitado, entrecortado de soluços. Chora baixinho e vai debitando queixumes ininteligíveis, numa articulação tolhida pela turgência ensanguentada dos lábios e pelo inchaço do nariz. A avó ralha, de pé, encostada ao fogão, a mão furiosa a rodopiar a colher no chá fumegante. “Isto não é vida, minha filha, estou fartinha do to dizer”.

A rapariga encosta-se à parede, escondida na obscuridade da madrugada. Percorre a sala com o olhar, tentando vislumbrar a mochila e – já agora – uma saída para o novelo emaranhado que é a sua vida. Gostaria de comer uma torrada, derreter o gelo dos pés com uma chávena de chá quentinho, mas não tem coragem de entrar na cozinha. Não lhe apetece enfrentar agora o rosto novamente desfigurado da mãe, não quer sentir o olhar piedoso e triste da avó.

Fecha a porta devagarinho e sai para o ar frio e cinzento da madrugada. Caminha alguns metros na direcção da paragem e estanca quando se lembra que não tem dinheiro para o autocarro. Também não tem senhas, nem o cartão da escola para almoçar, nem os livros para as aulas do dia. Todas as coisas de que precisa estão na sua casa, esquecidas na ânsia de escapar à sanha animalesca do pai. Voltar atrás não é uma opção, decide, enquanto corre o fecho do casaco até ao queixo e apressa o passo, que o caminho é longo.

Chega à escola esbaforida e encharcada pela chuva que teimou em cair, logo naquela manhã, a inaugurar o Outono. A aula já começou há muito. O professor suspende as palavras quando ela entra e todos os olhares voam para a sua figura esgazeada e patética. “Outra vez atrasada, não é verdade?”, reclama o professor. Oferece-lhe um “desculpe” sumido e distraído de quem tem mais em que pensar.

“Isto assim não pode continuar”, torna o professor. “já tens várias faltas de atraso e de material, não é verdade? E agora, pelos vistos, vais ter mais! Onde está o teu livro? Fizeste os trabalhos de casa? Anda, tira os materiais e começa a trabalhar!” A rapariga cerra os dentes com força para não deixar passar a zanga. As narinas dilatam no esforço de tentar controlar a respiração. “Olha-me este agora!”, remorde entre dentes. O professor não entendeu, mas os colegas das mesas mais próximas ouviram o seu comentário e olham-na, num misto de expectativa e reprovação. “O que foi que disseste?”, interroga o professor. “Responde-me”, insiste, perante o silêncio dela. “E olha para mim, que estou a falar contigo! Estás a ouvir? Onde está o teu livro? E o caderno? Não trazes nenhum material?”

A cada nova interpelação do professor, a raiva e a frustração atravancam-lhe a garganta como uma represa prestes a rebentar. “Ó pá, não me chateie!” dispara, com a fúria irracional de um animal acossado. O professor revida, arreliado e sentido: “Mas isso são modos? É essa a educação que a tua família te dá?”

A menção da palavra ‘família’ é um fósforo aceso no cenário de guerrilha que foi a sua noite, no carrocel desgovernado das suas emoções. “Não lhe admito que fale da minha família!”, grita-lhe com o fôlego que ainda lhe sobra. Levanta-se resoluta e ofendida e caminha para a saída como rainha no exílio. “Bardamerda”, foi a última coisa que disse, antes de bater com a porta com quanta força tinha.

 

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publicado às 19:43

1910

por MC, em 05.10.16

 

Lavadeiras 1910.jpg

 Grupo de lavadeiras (foto daqui )

 

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publicado às 21:54

Women Ironing

por MC, em 28.09.16

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 Degas, Women Ironing

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publicado às 22:37

A selfie

por MC, em 30.08.16

Que me desculpem todos os orgulhosos detentores de selfies maravilhosas em praias paradisíacas e longínquas, à janela de hotéis de requinte em capitais europeias repletas de cultura e urbanidade, ou em spas borbulhantes de exclusivos resorts. Que me desculpem, repito, mas esta foi eleita - por votação unipessoal, que é o meu tipo de sufrágio preferido - a selfie oficial da silly season. Desarruma-me tanto a cabeça e o coração, esta selfie, de tão enternecedoramente silly que é.

 

selfie.jpg

 

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publicado às 22:12

Je suis concierge

por MC, em 13.07.16

 

A avenida refulge de calor e luz. Por todo o lado, pedaços vibrantes de vermelho e verde agitam-se num misto caótico de felicidade e impaciência. A menina Isabelinha põe a mão em pala sobre a testa transpirada e tenta vislumbrar o horizonte lá longe, onde a avenida desagua no largo, atenta a qualquer movimentação. Sente o suor morno a colar-se-lhe às costas, a empapar-lhe as coxas sob o vestido florido. Tenta ludibriar o cansaço de tantas horas de espera, repartindo o peso entre uma e outra perna e abana-se, indolente, com uma revista velha que trouxe do salão da Jaqueline.

O coraçãozinho dela, porém, não sente cansaço. Flutua numa nuvem de felicidade e arrebatamento que alastra a cada minuto, como que por osmose, num êxtase compartilhado pela multidão sorridente à sua volta.  Está tão feliz, a menina Isabelinha! Sente a alma tão consoladinha como se fora ela própria, com os seus pezinhos - agora entumescidos e lancinantemente pregueados pelas tirinhas das sandálias - a calcorrear os agrestes relvados gauleses, a marcar o precioso golo da vitória. “Somos campeões”, garganteia em coro com a multidão, à medida que o autocarro avança na avenida, abraçado pelo povaréu, o plural veemente a encher-lhes a boca e o espírito.  

Reconhece-se numa irmandade desvalida de empregadas de limpeza e de porteiras, de padeiros e de operários, apoucados e amesquinhados por terras da estranja, onde ela nunca esteve. Sente-se pertença de uma massa humana valorosa e tantas vezes derrotada, tão habituada que está a que as circunstâncias lhe sejam adversas, em todos os campos, seja qual for o jogo.  

Aplaude com entusiasmo e gratidão os heróis que afinfaram um retumbante e bordalliano “toma” mesmo nas fuças da soberba - de todas as soberbas; os valorosos paladinos que nos desencardiram (mesmo que por pouco tempo) a honra da portugalidade.

A revista amarfanhada que servira de leque resvala agora debaixo do braço no estrépito do aplauso. A menina Isabelinha descarta-a, indiferente, no caixote do lixo junto ao passeio. Deita-lhe um último olhar descuidado, mas um detalhe imprevisto captura a sua atenção: na capa vincada da revista velha, o capitão herói sorri, um sorriso branco de felicidade no rosto bronzeado, o corpo lustroso de sol e mar, o deleite do ócio partilhado com um grupo de amigos.

A menina Isabelinha lembrou-se logo de ter lido aquela entrevista. Recordou as insinuações maliciosas acerca da forma como escolhia viver a sua vida, das pessoas de que se fazia rodear. Recordou tantas outras entrevistas, reportagens e artigos, repletos de comentários depreciativos, de inúmeras ilações acerca do seu caracter e do seu profissionalismo, tantas vezes despropositadas, de alusões sarcásticas à família em geral, à pirosice das manas em particular, as larachas sobre as roupas e os carros e todos os luxos despropositados que afrontam o português comum.

A menina Isabelinha olhou para eles, os heróis nacionais, a acenar, felizes, em cima do autocarro. Lembrou-se de ter lido outro tanto de chalaças acerca de engenheiros inaptos, de pretos e de ciganos, de madraços macambúzios e incompetentes. As suas mãos diminuíram por instantes o ritmo frenético dos aplausos e uma restiazinha de vergonha toldou-lhe o rosto de rubor escarlate. Mas foi só mesmo um instante. Sacudiu os pensamentos incómodos como quem afasta os irritantes mosquitos da fruta e retomou os festejos. Chupez, franciús. São muito mais asseadinhas as batalhas, quando os inimigos são de fora.

 

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publicado às 14:54


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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